Eu, uma Caiçara

December 14, 2008 4:27 pm

A poetisa em mim, hoje está inquieta… refugiada na plenitude do meu silêncio, me ponho a pensar…

Sobre as àguas do Rio Araguaia.

Quando amamos somos tomados por uma
fragilidade
que estende em nossa alma
e agimos com a inocência
e inconsequência de uma criança
e toda a incredulidade passa a ser esperança.

A realidade é resguardada no meu recôncavo
o coração sangra
e uma torre de silêncio se ergue na planície dos
meus olhos
escondem vorazes segredos
lentamente invade minha alma
como a canoa que singra o Araguaia.

O barco colorido distância singrando
as turvas águas e levando meus sonhos a deriva
e no côncavo da translúcida e inesperada
partida
sepulcro no náufrago espelho d'água meus
reflexos perambulando
deixei um rastro de perdidas ilusões
perdidas pétalas
como oferendas lançadas ao leito
e levadas pelos Orixás
talvez um dia chegarei a Xambioá.

Minha face despida
pelo negrume da partida
resignada
permaneço
apenas com o olhar aceso dos curiosos
atentos
acenando com rubros lenços
e de lágrimas se faz mar minha felicidade.

Um trôpego silêncio
e o clamor áspero implorando
contempla
um breve regresso.

No crepúsculo estranhos risos rompem
a triste tarde que tênue esconde
o efêmero pouso solitário da andorinha
andarilha no recôndito das grutas.

Já em Santa Cruz
as dunas brancas e leves parecem
teus seios no cio
e da areia desabrocham virgens
com seios deliciosos de Cupuaçu
E de suas entranhas posso extrair
o suco sacro do açaí.

A sutil arquitetura
arquitetada
milimetricamente esculpida e
desenhada explicitamente pela natureza
as águas banham as grutas
exibindo beleza
submergindo os coqueirais
e as caiçaras de Babaçu em Babaçu
elas ouvem os gritos.

Numa fé em fábulas e mitos
elas vigiam
o peixe-boi que rufa em seu império soberano
e sutilmente dança um balé cigano
as canoas cortam rio adentro remansos e redemoinhos
os Tuiuiús e as Garças constroem seus ninhos.

Nas margens o pescador
exila-se no negrume
enquanto lança suas esperanças insólitas
no imenso espelho d'água
com suas tarrafas e redes
extraindo das negras entranhas do Araguaia
seus alimentos.

E a beleza acesa da pele mística da Caiçara
a beira da praia
em seu âmago penetram suas fantasias
sua crenças e liturgias.
Então ela tímida com seus pensamentos errantes, pergunta?

Onde estará ancorado o barco que daqui zarpou
e de porto em porto ancorou?
estará em São Geraldo, Xambioá, Santa Cruz
ou Marabá?


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